13 Reasons Why – Suicídio e Depressão na Adolescência

Precisamos Falar Sobre o “13 Reasons Why” – Suicídio e Depressão na Adolescência

(contém spoilers)


Nas últimas semanas o assunto que tomou conta nas redes sociais  e jornais foi a repercussão do seriado original do Netflix “13 Reasons Why”. Houve uma enxurrada de críticas – umas contra e outras a favor – em torno do seriado que gerou uma polêmica mundial.

A série levanta uma questão que é muito séria e delicada, mas necessária a meu ver: o bullying na escola e todos os conflitos e questões que envolvem a dramática fase da vida. Mas mais polêmico do que isso: a série aborda o suicídio da protagonista da série como sendo consequência de uma série de pessoas negligenciando atenção e cuidados a ela. Ela, sentindo-se desamparada e, da sua maneira, tentando obter ajuda, no auge do drama que já não era um contexto fácil de suportar, sofre um estupro.

A partir disso, ela ainda tenta elaborar, busca ajuda, mas, mal amparada por quem procura para ajudá-la, desaba. Não aguenta mais e tira a própria vida. Esse é um prisma do 13 Reasons Why: como a sociedade, a escola e a família são totalmente despreparados em lidar com o bullying e mais, como o negam. Possivelmente pela próprio despreparo em lidar e conduzir o assunto.

Assista o vídeo que preparei para você e depois leia o post até o fim:

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O Que Estão Falando Sobre?

Alguns artigos em jornais nacionais e locais incisivamente condenaram a série 13 Reasons Why e alguns profissionais da área psiquiatria e psicologia condenam e bombardeiam a série de uma forma complicada, sob o prisma de que pode “dar ideia” para pessoas com tendências suicidas.

Li esse artigo afirmando:

“… a glamourização do suicídio e a utilização do autoextermínio como instrumento de vingança, fatores de propensão ao chamado efeito Werther – termo científico pelo qual a publicidade de um caso notável serve de estímulo a novas ocorrências. Pessoas fragilizadas psicologicamente seriam mais inclinadas a vivenciar de forma negativa a forma como o suicídio é representado em 13 reasons why.”

Bem… eu diria então que pessoas fragilizadas não devem assistir o seriado 13 Reasons Why . Ele não foi feito pra elas. Pessoas fragilizadas a ponto de estar passando pela ideação suicida, deveriam estar sendo amparadas e assistidas pela família e por profissionais que tenham condições de resolver e conduzir a questão a ponto de tentar evitá-la.

Bem… deveriam. Mas não é isso que acontece. Exatamente pelo despreparo que as pessoas e profissionais tem e da visão limitada e conservadora sobre o assunto, sugerindo que o silêncio seria a melhor opção!

Mas acho que a discussão precisa ser levantada e precisa continuar sendo tratada. E esse é o propósito da série 13 Reasons Why.

A Dificuldade dos Adolescentes de Lidar Com Emoções

O outro prisma da série 13 Reasons Why, que é sobre o qual quero me aprofundar aqui, é sobre a dificuldade dos adolescentes – que vivencia esse contexto acima – que tem uma falta de habilidade natural em reconhecer, nomear, lidar, e principalmente, falar sobre suas emoções.

O fato é que o suicídio não deveria ser vista como uma “opção” para os adolescentes. Mas tem uma razão para o suicídio ser a maior causa de morte entre adolescentes, depois de acidentes de carro.

E acho que a razão – ou a explicação – para isso é a conjunção dessas duas coisas:

1) O despreparo dos adultos em lidar com a fase  – principalmente quando o “caldo engrossa” e envolve bullying* na escola;

2) A sabida – e conhecida por nós que já estivemos na adolescência –  inabilidade em lidar e gerenciar o turbilhão de emoções e sofrimento que parecem que nunca terminarão.

A questão é que os adultos tendem a banalizar o que para um adolescente não é nada banal. O cérebro do adolescente funciona de uma forma completamente diferente dos adultos.

As questões dos adolescentes giram em torno de sua reputação, que basicamente se resumem a zelar pela parte mais importante de sua personalidade: seu ego.

O adolescente está na célula narcisa e a própria reputação é o seu maior bem. A necessidade de aprovação dos demais, o sentimento de fazer parte, de ser aceito, de se sentir desejado e bonito ou bonita… de “bombar nas redes sociais”  é extremamente relevante para eles. E muitas vezes isso é visto pelos adultos como “coisas banais”.

Imagine então uma situação mais pesada, como o bullying, de qualquer natureza. Isso, se mal endereçado – como na maioria dos casos – pode causar danos irreparáveis à vida de um/a adolescente, se ele/a não tem estofo emocional, abertura e apoio para remediar a situação. Isso, se não conduzido com cuidado e a atenção devida, pode levar a casos de ansiedade extrema, pânico, depressão ou quadros de stress pós-traumático e até suicídio. E tudo isso pode acontecer sob os narizes dos adultos… num silêncio poderoso… que é justamente esse que alguns comentários negativos sobre a série 13 Reasons Why querem estimular.

É Hora de Falar!

E a intenção desse artigo é estimular uma coisa apenas: falem sobre o assunto! Não apenas alunos, escolas, faculdades ou professores e profissionais da área de saúde e educação. Mas entre os pais, entre os pais e seus filhos!

Teoricamente incentivo à fala deveria vir dos adultos que o cercam. E muitas vezes vem! Mas a questão é como entrar nessa caixa blindada que é um adolescente se eles não “querem” falar?!

E essa é um ponto importantíssimo da série 13 Reasons Why para o qual chamo atenção. Na realidade, eles não sabem falar! Não conseguem. Porque não aprenderam a identificar suas emoções, muito menos nomeá-las ou entender sua dinâmica e seu aspecto passageiro. Honestamente, nem os adultos sabem fazer isso. Então, como culpá-los?

Existe tanta coisa que se passa em suas cabeças e corações e tão pouca habilidade em dividir o que pensam e sentem. Eles simplesmente não conseguem se comunicar. E mostrar que eles não sabem fazer isso e estão completamente perdidos, numa idade extremamente narcisa, é um dilema no mínimo aceitável. Como mostrar uma fraqueza? Em uma idade em que precisam se afirmar tanto e mostrar que tem razão e são autossuficientes?

O adolescente está tentando estabelecer sua independência e isso atrapalha, porque às vezes quando eles gostariam de ter ajuda e orientação eles também resistem a isso, pois precisam se auto afirmar como independentes. Querem ajuda mas não sabem ou não admitem pedir por ela.

A questão é que, por essa dificuldade em se comunicar, o adolescente se fecha completamente e o adulto não sabe como penetrar nesse silêncio. A série 13 Reasons Why ilustra muito bem isso.

Como Lidar Com Isso?

Existem formas, obviamente. Os pais/mães precisam aprendê-las. É possível criar um ambiente familiar em que se constrói o estofo, o apoio e ferramentas emocionais adequadas que possibilitam ao adolescente se expressar quando precisa, que o faça sentir em segurança e que lhe dê a coragem para situações em que for precisar dela. Mas muito frequentemente, os pais confundem as coisas – por falta de habilidade também. Acham que os filhos deveriam contar tudo, confidenciar com os pais, como o fazem com seus melhores amigos/as.  Mas é preciso lembrar que pais/mães não são amigos de seus filhos. São pais e mães. E o seu papel é outro.

O que acaba acontecendo é que o silêncio se instala e pouco espaço é deixado para achar pistas do que se passa na cabeça de um adolescente.

E sem a habilidade do próprio adolescente em entender, reconhecer e comunicar o que sente, tudo se complica mais ainda. Eles podem ser capazes de se expor totalmente no Instagram , no Facebook ou Snapchat. Mas isso não significa que estão no domínio de suas emoções. Longe disso.

Mas fugir do assunto e não falar sobre essas questões que envolvem as emoções e as turbulências na personalidade (ou construção dela) clássicas da fase adolescente, não me parece ser a solução mais prudente. Nem as escolas nem os pais e mães tem preparo algum para ensinar a educação emocional. Porque também não a aprenderam.

Eu trabalho com transtornos da ansiedade, do pânico e fobia social. As causas desses transtornos são geralmente conflitos e problemas de autoestima cujas raízes estão cravadas na infância e na adolescência. Raízes que se proliferaram e cresceram justamente pela falta de diálogo, pela falta de suporte de adultos que REALMENTE  saibam orientar, saibam como funciona o nosso sistema de emoções e não simplesmente aconselhem a não falar porque eles próprios nem saberiam o que dizer.

Somo todos analfabetos emocionais. Como culpar os pais? como culpar a escola? Como culpar os próprios adolescentes? O caminho é outro: achar uma solução e não um culpado.

E ela existe.

Em 2014, um estudo conduzido pela Associação Americana de Psicologia revelou que 31% dos adolescentes entre 13 e 17 anos alegam que seus níveis de stress aumentaram comparando-os ao ano anterior e 42% sentiam que não estavam sendo amparados ou fazendo o suficiente para endereçar as questões do stress  típicos da idade. Adolescentes são mais propensos a depressão e transtornos da ansiedade.

Mas como os adolescentes podem obter o suporte emocional adequado durante essa fase conturbada?

Muitos adolescentes acabam apelando para recursos externos – amigos, hobbies e, mais raramente a família. Vejo muitos pais começando a realmente se preocupar com seus filhos adolescentes e encaminhando-os para a terapia apenas quando problemas mais graves aparecem (se aparecem). Fazemos isso quando o assunto é as nossas próprias questões corporais, de saúde física.

Tendemos a tomar uma atitude para tratarmos a doença física depois que ela acontece… ou seja: não tratamos da nossa saúde física. Agimos quando um alerta de que algo não vai bem é disparado (doença), depois que a doença (sintoma) já se instalou, ao invés de agirmos preventivamente. Na esfera da saúde emocional é a mesma coisa.

Esperamos “não estar bem” para buscar ajuda. Não existe um trabalho consistente e contínuo que enderece as questões emocionais, infelizmente. E isso deveria justamente começar na infância e adolescência. Só assim teríamos adultos emocionalmente saudáveis que saberiam orientar seus filhos em qualquer idade. Ser pai ou mãe não pode ser intuitivo. Intuição é apenas uma ferramenta. Ser pai ou mãe deveria envolver a inteligência emocional dos adultos.

Mas o que fazer na prática?

Bem… apesar da aparente complexidade do assunto, existem atitudes muito simples que os pais/mães podem ter que contribuem largamente para endereçar as questões e conduzir os conflitos de uma maneira aceitável.

Então, para começar essa tarefa simples, eu sugiro uma prática que pode ser feita pelos pais/mães e conversadas com seus filhos. Simplesmente exercitar a aceitação. (Eu falei simples. Não falei fácil!).

Em um estudo feito no verão de 2013, 132 adolescentes participaram de um retiro de 5 dias (retiro não-religioso), organizado por uma Instituição de estímulo às práticas de Desenvolvimento Emocional e Consciência Plena (mindfulness) em adolescentes.

O retiro foi desenhado para estimular práticas de meditação, relaxamento e mindfulness e outras capacidades emocionais e mentais positivas como a auto-compaixão, auto-aceitação e a gratidão.

Os adolescentes desse grupo aprenderam a se concentrar melhor e a aceitar mais o momento presente e suas experiências, bem como adotar uma atitude de cuidado com o ser humano, incluindo eles mesmos entre si, desenvolvendo minimamente conceitos de autonomia.

Cada dia do retiro incluía práticas iniciais de meditação, caminhadas meditativas, yoga e workshops*. Os adolescentes também formaram pequenos grupos, com adultos como facilitadores. Nos grupos, eles eram conduzidos a praticar a interação entre si, enquanto discutiam seus sentimentos, pensamentos e emoções sobre o retiro.

Antes e depois do retiro, os adolescentes responderam uma pesquisa sobre stress, sintomas de depressão e emoções negativas como raiva, revolta e ansiedade. Também deram notas antes e depois das práticas para suas emoções, sua conexão com o aqui e agora, suas emoções (positivas ou negativas) e sobre a sua noção geral de satisfação ou insatisfação com suas vidas.

Três meses depois, os adolescentes foram contactados para responder às mesmas pesquisas com a intenção de avaliar a evolução/melhora de como se sentiam.

Os resultados foram claros e cristalinos: imediatamente depois do retiro, os adolescentes se sentiram menos estressados e menos deprimidos. Sentiam-se mais felizes, com maior nível de autoaceitação e mais satisfeitos com suas vidas. Mas principalmente, os benefícios do retiro foram duradouros. 3 meses depois, os adolescentes ainda reportavam estarem se sentindo melhor do que antes do retiro. Em outras palavras, eles aprenderam habilidades emocionais no retiro que pareciam ter ajudado a gerenciar seu stress  e suas emoções, decorrentes dos conflitos típicos das duas vidas diárias.

Quais você acha que foram as habilidades que mais perduraram e ajudaram no longo prazo para melhorar o bem-estar desses adolescentes? Os resultados mostraram que a AUTOACEITAÇÃO foi o aspecto que mais colaborou… mais do que as práticas feitas em grupo ou as de consciência plena e meditação.

Os adolescentes que cultivaram uma melhor noção de afeto consigo mesmos e de simpatia em relação às dificuldades em suas vidas, foram os que relataram sentir menos stress, menos depressão e maior satisfação com suas vidas após o retiro.

Como Eu Posso Fazer Algo Assim?

Como outros adolescentes e pais/mães podem se beneficiar com essas práticas? Simples: praticando-as em casa! Não precisa esperar que um retiro desse tipo aconteça – até porque as chances disso acontecer são pequenas.

Por exemplo,uma das práticas que os adolescentes faziam todas as manhãs eram as de meditação guiada para estimular o amor próprio e o afeto interior. Essa prática começa com um a condução de uma atitude mental de afeto por si mesmo.

Os adolescentes eram estimulados a aprender a respirar e repetir frases mentalmente como “eu me permito ser feliz”, “eu me permito me amar”, “eu me aceito como sou”. Em seguida, as frases de expressão de afeto eram mentalmente manifestadas a seus familiares, amigos e conhecidos da escola, incluindo professores.

A ideia era criar uma atmosfera de aceitação e amor incondicional, começando por eles mesmos. Afinal, como aceitar os outros se não nos aceitamos? Como amar os outros, se não praticarmos o amor próprio?

Como prática complementar, os adolescentes aprenderam a identificar e descrever suas emoções e compreendendo-as como manifestações das suas necessidades. Elas precisam ser expressas da maneira correta, sem revoltas e exageros. Elas não podem ser caladas! Durante as meditações, a curiosidade pelo outro e a empatia eram estimuladas, junto com práticas de não-julgamento.

Isso estimula não apenas a auto empatia como também estimula e encoraja o entendimento crítico e inteligente do stress; quando os jovens estão mais conscientes e focados no aqui e agora e nos seus sentimentos de uma forma amigável, eles podem começar a perceber o que desencadeia as emoções e o que as acalma.

A autocrítica, a solidão e as incertezas sobre o futuro são os grandes desafios dos adolescentes. Essa pesquisa feita baseada nas práticas do retiro sugere que, responder às próprias limitações e falências com afeto ao invés de crítica (tanto deles próprios como dos pais) ,ou com o silêncio/negação da situação, é essencial e pode ser uma luz em direção à alguma saída que leve ao bem estar emocional dos adolescentes. Isso – e não o silêncio – poderia de fato evitar muita coisa.

O silêncio só estimula a solidão da fase, que gera muita tristeza, ansiedade e até depressão. O silêncio tira as chances de qualquer coisa boa. Tira a chance de os adolescentes compartilharem as suas batalhas internas. E quem tem que conduzir e estimular que eles falem teoricamente são os adultos que os cercam.

O adolescente “fala” de muitas outras formas. E os pais/mães precisam aprender a decifrar isso com algumas ferramentas disponíveis se quiserem acessar esse universo – a princípio enigmático e dramático-  que é a teia emocional dos adolescentes e garantir sua integridade emocional e sua felicidade.

A via para isso é descomplicar. Mandar para terapia parece ser a solução para alguns pais/mães preocupados e ativos. Mas tem que se ter cuidado para não terceirizar a questão. Eu atendo adolescentes cujos pais/mães nunca me ligaram para nada. Simplesmente não é com eles. E mesmo os que ligam, se eu não puxo e envolvo a família de uma forma sistêmica, não teriam um interesse além do “saber como está indo”. Infelizmente isso não basta.

Eu diria que buscar profissionais que orientem e realmente ajudem a implantar mudanças perceptíveis e sensíveis na relação pais/mães com seus filhos adolescentes é o caminho. Essa foi a mensagem importante que eu captei do seriado 13 Reasons Why.

Portanto, busquem a ajuda certa! Envolvam-se, patrocinem esse bem estar para seus filhos/as adolescentes e para sua família. Quebrem o paradigma. Não silenciem. Inovem. Isso pode salvar uma vida.

“Muitos se importaram. Mas ninguém se importou o suficiente”

(Hannah Baker, personagem do 13 Reasons Why antes de cometer suicídio).

Quer experimentar uma maneira de seu filho/a adolescente praticar a consciência plena e o foco no aqui agora? Isso pode ajudar a diminuir a ansiedade e a se sentir protegido. É um gesto amoroso que você pode manifestar para o seu filho ou filha.

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Tem alguma pergunta para me fazer ou que agendar uma consulta?

Whatsapp – (41) 98818-7764

Um abraço

Elsie Herber  – Psicóloga

Curitiba – PR

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13 Reasons Why - Suicídio e Depressão na Adolescencia
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